Responsáveis pela morte de Márcio ainda não foram presos, dois anos após crime

Mais um episódio de barbárie envolvendo membros de facções organizadas chocou o Recife. Cenas de violência explícita em plena luz do dia precedendo um espetáculo de futebol, esporte que vem ficando em segundo plano diante de tamanha selvageria de alguns que se dizem ‘torcedores’. A espera agora é por respostas em forma de identificação e, principalmente, punição dos envolvidos. Esse ponto, contudo, é o que mais divide opiniões. Enquanto a polícia atende a imprensa e promete busca incessante aos culpados, o histórico legal aponta um cenário decepcionante. A maioria dos episódios dessa natureza, quando não caem no esquecimento, se arrastam por anos sem terem respostas.


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É assim, sem respostas, que vive a família de Márcio Roberto Cavalcanti da Silva, morto em 2016, aos 36 anos, vítima de agressão de torcedores do Santa Cruz após um clássico contra o Sport, no estádio do Arruda. Dois anos depois, os culpados seguem impunes. Sequer tiveram suas identidades reveladas. “Houve uma investigação, mas está parado, não fecharam”, disse a irmã de Márcio, a tecnóloga em radiologia Olívia Araújo, de 44 anos.

Emocionada, ela recorda a agressão sofrida pelo irmão enquanto espera justiça para quem tirou a vida não só dele, mas de parte da família. “Minha mãe (uma senhora de 65 anos) não vive mais. Ele era o filho que resolvia tudo para ela, estava sempre perto. Uma das meninas dele, de cinco anos, pede a volta do pai constantemente”, contou Olívia. Márcio deixou um menino e duas meninas, gêmeas, que têm 14 e cinco anos, respectivamente.

Naquele 4 de maio de 2016, quando Santa Cruz e Sport se enfrentaram na primeira partida final do Campeonato Pernambucano, Márcio sequer ia ao jogo, pois não gostava de ir ao Arruda. Foi convencido por amigos. Também não gostava de ir a estádio com camisa de time, mas, como iam de carro, mudou sua rotina. “Ele fez duas coisas que não gostava. Quando houve a confusão, todos correram, ele tropeçou, se perdeu dos amigos e acabou atingido na cabeça. Ainda passou por cirurgia, a qual sobreviveu por milagre, mas faleceu dois meses depois”, recordou Olívia, que, ao lado de um amigo advogado de Márcio, segue atrás de respostas. “É impossível aceitar que ninguém viu, ninguém sabe, nenhuma câmera flagrou. Uma câmera pega meu irmão andando, mas não tem o momento da agressão. Na avenida Beberibe, ninguém fala, os comerciantes têm uma espécie de pacto de silêncio. Mas nós não vamos desistir.”

Segundo ela, o caso de Márcio esteve nas mãos do delegado Paulo Furtado, da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), mas agora está sob a responsabilidade de Paulo Moraes, justamente o titular da Delegacia de Repressão à Intolerância Esportiva, que comanda as investigações dos conflitos deste domingo. “Quem sabe agora, com esse caso, haja novidades. A esperança é que alguém que seja pego fale algo”, disse, confiante, Olívia.

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